A vida de Roberto Pereira, o Bob Ceperuelo, não é um roteiro estático, mas um espetáculo itinerante. Carioca de alma, ele permitiu que sua lona se armasse em diferentes terras, absorvendo as luzes de Santa Maria e Joinville por quase uma década, antes de retornar ao brilho da “Cidade Maravilhosa”. Na sua mochila, não carrega apenas pertences, mas os instrumentos de seu número principal: livros e pincéis, objetos que ocupam e dão ritmo ao seu caminhar.
Sua formação é um mosaico de saberes que se encontram no centro do picadeiro. Entre a estrutura lógica da Administração pela FGV e as indagações profundas da Filosofia na UFRJ, Roberto moldou uma sensibilidade rara. A música é a fanfarra que embala sua criação; entre as notas do trompete e do teclado, ele encontra o tom certo para suas telas, sendo frequentador assíduo do Theatro Municipal, onde se nutre da harmonia das grandes artes.
Lapidado por espaços como a Escola de Belas Artes e o Parque Lage, sua obra nasce de um gesto espontâneo, quase um salto no trapézio sem rede. É nesse movimento que Bob Ceperuelo desvela o cotidiano, tornando visível o que o olhar rotineiro costuma ignorar.
Sua pintura é uma oferta sanguínea e exposta, que caminha com equilíbrio entre a delicadeza do romantismo e o vigor do brutalismo. É nessa dualidade que ele busca as verdades — escritas com “v” minúsculo, por serem humanas e palpáveis — revelando a espiritualidade que habita e fim.
Contemplar um quadro de Ceperuelo é atravessar portais que transpassam as figuras do “Dono do Circo” e do Palhaço — este último tratado com a dignidade de quem é, antes de tudo, a alma do espetáculo. Suas séries, como “Gente, Pessoas e Janelas”, são convites para ver além da técnica acadêmica.
Ali, a luz não apenas registra, ela emana, revelando pessoalidades e ambiguidades. Cada obra oferece ao espectador não uma “coisa única”, mas um labirinto de interpretações, proporcionando a chance de vislumbrar o extraordinário por trás da cortina do real.
Nesta coleção, o artista nos convida a adentrar a coxia da alma humana. Mas quem é este “Dono do Circo”? Ele não é apenas a figura de autoridade sob a lona principal; é, simultaneamente, o Mestre de Cerimônias de nossas próprias vidas e o Palhaço, que com sua máscara, revela as verdades mais cruas e belas.
Longe de qualquer viés ofensivo, o Palhaço é aqui celebrado como a figura central e sagrada da existência. A obra transpassa a caricatura para encontrar a vulnerabilidade e a força da espiritualidade exposta. Onde o romantismo e o brutalismo se encontram na face pintada, Bob Ceperuelo captura o olhar que vê através da maquiagem, desvelando o equilíbrio frágil e potente entre o rir e o sentir.
Nesta série, a tela se transforma no limite físico entre o mundo exterior e a intimidade da alma. Como espectadores diante de uma grade de janelas, somos convidados a observar o desabrochar da existência no cotidiano.
A luz é a protagonista silenciosa deste ato. Ela não apenas ilumina o objeto, mas emana dele, registrando visões únicas de personas misturadas à delicadeza efêmera das flores. É uma obra gestada de forma espontânea, que convida o olhar rotineiro a parar e ver o extraordinário que se esconde atrás das cortinas do dia a dia. Através destas “Janelas”, Bob nos oferece a oportunidade de vislumbrar a ambiguidade do mundo lá fora e do conforto (ou angústia) daqui de dentro.
Este é o ato final, o número de malabarismo onde o eu e o outro, o pessoal e o impessoal, se encontram no ar. Nesta coleção, o artista nos oferece um labirinto de múltiplos rostos e formas, buscando as verdades escondidas na identidade.
Empregando mais do que técnicas acadêmicas, Roberto Pereira utiliza seu pincel como um espelho que deforma para revelar a essência. As obras não buscam uma “coisa única”, mas a multiplicidade de leituras que uma mesma essência pode ter. É uma exploração da espiritualidade na multidão, uma busca por ver a si mesmo no rosto do desconhecido e entender a pessoalidade que brilha, mesmo quando a identidade parece impessoal.
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